De Domingos da Guia, nas décadas 1930 e 40, a Garrincha, nos anos 50 e 60, muitos dribles, muita magia e muito carinho com essa moça chamada bola...
Texto: Mário Marinho
Corria o
ano, já tão distante, de 1959 quando vi Garrincha jogar, ao vivo, pela primeira
vez. Foi um amistoso contra o meu América Mineiro, numa quarta-feira à noite daquela
então pacata Belo Horizonte e eu corri para comprar ingresso, matei aula e fui
um dos anônimos que lotaram a Alameda, como era conhecido o estádio Otacílio
Negrão de Lima, do América.
Meus olhos
estavam fixos em Garrincha. Meu coração torcia para o América, mas eu queria o
espetáculo de Garrincha. Meus anseios foram satisfeitos pela metade: o América
venceu, mas Garrincha não deu show. Uma ou outra jogada bonita, a ameaça de um
drible aqui outro ali. Nada espetacular.
Nada que
lembrasse aquilo que eu havia lido sobre ele, antes ainda da Copa do Mundo de
1958, quando ele driblou meio time adversário e ao invés de fazer o gol, voltou
para driblar todos outra vez e só então marcar.
Aconteceu no
jogo de preparação para a Copa contra o Fiorentina, em Firenze, no dia
29/05/1958.
Reza a
lenda que aos 25 minutos do segundo tempo, Garrincha passou por toda a defesa
do Fiorentina, chegou à linha do gol, parou a bola, voltou e driblou todo mundo
outra vez e só então marcou, para desespero do técnico Vicente Feola.
No jogo
seguinte Garrincha foi colocado na reserva. Segundo reza a lenda, Feola teria
dito que o ponta direita não tinha responsabilidade para vestir a camisa da
Seleção Brasileira. Verdade ou não, ele ficou fora do jogo de estreia da Copa
(vitória por 3 a
0 contra a Áustria) e só voltou no terceiro jogo, contra a Rússia.
Eu ficava
imaginando um jogador driblando meio time e depois repetindo a dose. Naquele
amistoso contra o meu América, eu temia que aquilo acontecesse, ao mesmo tempo
em que ansiava por assistir àquela magnífica jogada.
Há poucos
dias fazendo pesquisa sobre futebol, encontrei uma crônica do jornalista Mário
Filho (nome oficial do Maracanã), na
qual ele falava sobre a grande jogada de Domingos da Guia.
Domingos da
Guia foi considerado o maior zagueiro da história do futebol brasileiro. Eu que
não o vi jogar, fico com o magistral Luís Pereira.
O pai do
genial Ademir da Guia foi um zagueiro mais do que exemplar. Titular da Seleção
Brasileira na Copa do Mundo de 1938, ele era elegante e, ao contrário dos
zagueiro da época, tinha um futebol extremamente clássico: nada de chutões ou
de ponta pés nos adversários.
Esse o
perfil que costumei a ler sobre Domingos da Guia.
Mário Filho
conta que num jogo entre o Flamengo
de Domingos e o Botafogo, disputado nas Laranjeiras, campo do Fluminense, ele
foi vaiado pela torcida adversária ao chutar uma bola para fora.
Conta ainda
Mário Filho que Domingos era um jogador discreto, que não precisava de grandes
corridas ou de grandes esforços, pois a bola vinha, mansa e delicada, ao seu
encontro.
Talvez, por
isso, ele tenha sentido a vaia.
Num
determinado momento, ao receber a bola em sua área, esperou o combate dos
atacantes do Botafogo e foi driblando um por um, de Heleno a Geninho.
Terminada
a seção de dribles a que a torcida assistiu extasiada, fez um longo lançamento
ao ponta Vevé, la do outro lado do campo. A bola caiu mansamente aos pés de
Vevé, como se fosse um por do sol.
Domingo
perfilou-se a para a torcida, curvou-se e fez um longo gesto com o braço
direito, como se levasse à mão um chapéu com um longo penacho, próprio das
realezas.
De pé, a
torcida aplaudiu a jogada e entendeu a reverência.
Era mestre
Domingos. Anos mais tarde, seria o genial Garrincha.