Manto sagrado? Instrumento de trabalho? O que é afinal uma camisa de futebol?
Em tempos em que o dinheiro é soberano, qual jogador de fato veste a camisa que usa?
Vai saber...

por Ivan Nisida
Dia 20 de fevereiro de 2010. O lateral esquerdo Thiago Carleto desembarca no quartel de seu novo time, o São Paulo Futebol Clube. Rotina de cartilha; apresentar-se, ser entrevistado e vestir a camisa. E, no meio da coletiva, Carleto chora sobre suas novas cores. Para ele, jogar no SPFC é um sonho concretizado e a emoção imperou no momento. Válido notar que o episódio é raro. A autenticidade de um jogador que declara amor à camisa não tem preço hoje em dia. Na era dos atletas vendidos logo após seu nascimento futebolístico, esse sentimento sobrevive entre suspiros esparsos (pelo menos nas aparências). E, talvez, somente o jogador que pensa também como torcedor pode compreender todo a mística que recobre o uniforme de um clube. Que o digam Marcos e Rogério Ceni, mitos sacramentados em suas equipes e goleiros que de fato vestem a camisa.
No sentido prático, a camisa divide os homens em campo e nas arquibancadas mas une-os pelo futebol. É um instrumento útil à diferenciação de dois esquadrões em campo. Porém, ela se projeta como objeto de maior importância no universo simbólico. A camisa, suntuoso estandarte da força de um clube, resguarda assim ingente carga simbólica. Notável por portar uma míriade de lembranças e espólio de heróis que já portaram tais cores, toda camisa de clube carrega certa mística, uma imagem retroalimentada pelo imaginário coletivo. Toca uma parte sensível da cultura do futebol. É um receptáculo repleto de símbolos agitados e recorrentes.

Inclusive, é comum guardar-se uma camisa que testemunhou um título no estádio, como uma ponte mnemônica para um instante de glória. Já no final de cada jogo, camisas são trocadas como gesto de fairplay. E quem não se entrega à beleza das camisas hasteadas no ar como bandeiras? E que torcedor que não se encanta pelo jogador que beija a camisa ao estufar as redes? Bater no peito e saltar para a euforia. (Da mesma forma, pisoetar ou queimar a camisa do time rival é um ato simbolicamente brutal...).
Por outro lado, vestir a camisa de um grande clube implica em encarnar inexoravelmente o peso de sua história. O jogador deve suportar a pressão por títulos e atuações de gala, além de introjetar o espírito do clube em que se joga. Raça, técnica, determinação. É imperativo para um atleta vestir a camisa (e não simplesmente usá-la). Vestir, de fato, é em última instância integrar-se à história do clube por feitos e conquistas. Ser contratado por um São Paulo, Palmeiras ou um Corinthians é aderir a uma massa insuperável de torcedores ferozes e vorazes por vitórias. Torcedores maníacos, prontos a desabar um tonel de pragas em um jogador que faz corpo mole ou erra um tento embaixo do travessão. Correr é mais árduo sob o peso monumental das vaias e o dia-a-dia é uma panela de pressão colossal.
Ao mesmo tempo, é fascinante como vestir a segunda pele condena o futebolista profissional a uma multidão de torcedores dispostos a odiá-lo. Portar as cores de uma determinada nação futebolística significa ter o nome cravado à lista negra de arqui-rivais. Nada de verde na sede da Gaviões e vice-versa na Mancha Verde. Mesmo a camisa amarela mais gloriosa de todos os tempos carrega, além das cinco estrelas, fardos e decepções mitológicas. A amarelinha traz consigo a tragédia de 50, quando o escrete dourado deixou de conquistar sua primeira taça no Mundial, e também a vexaminosa campanha de 2006. Aliás, os escolhidos de Dunga, apesar das boas campanhas, deverão carregar esse fardo na Copa da África do Sul.
Na religião do futebol, a camisa é um manto sagrado, uma fina camada de pano que une milhares de seres sedentos por futebol a uma tessitura de outros milhares. Um escrete não é somente uma dúzia de funcionários de um clube, mas representantes de uma nação da bola, horda de fiéis ortodoxos ou não.
Avanço em bloco, defesa em linha. Atrás deles, multidões em berros profundos. Corpo fora, alma dentro de campo. A camisa carrega o sangue e o suor das batalhas campais.
E de vez em quando, portadores de camisas se reúnem em templos de cimento para louvar suas equipes. Todos, orgulhosamente, estampam suas segundas peles nos camarotes, nas numeradas e nas arquibancadas. Tudo ordenado como um pseudo-ritual de celebração. Cria-se então o elo vital entre jogador e torcedor, soerguendo a massa, pintando as cadeiras quentes dos estádios de futebol. A camisa pula, se debate, transpira, sofre. Viva, ela sai dos peitos dos torcedores para bailar no ar, agitada como bandeira de uma eterna paixão; o futebol. De longe, vê-se o coração inflamado pulsar sobre o tecido e desenhar humanóides pululantes na arquibancada cinzenta.
Uma pena que já se foram os tempos imemoriais das camisas limpas, descompromissadas com os tentáculos do capitalismo. Hoje, para pagar salários estratosféricos, um clube deve se render à mácula das marcas impregnando os brasões e cores. Algumas se salvam e resguardam certo valor estético, mas outras são entupidas de gordas publicidades, convertendo-se em aberrações da moda futebolística.
E entre os altos e baixos do universo do futebol, a camisa e amor a ela sobrevivem no peito de torcedores e alguns raros jogadores que, dentro de campo, mostram raça e compromisso com as cores que vestem. Mostram que não estão só correndo e apanhando, mas vestindo a História e a paixão pelo futebol.