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Literatura futebolística

Anatomia de um pênalti

Qual é o alfabeto das entrelinhas de uma penalidade máxima?

Por Pedro Proença

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O que se passa na cabeça de um jogador que vai cobrar um pênalti? Não importa se o jogo está em andamento ou se é decisão por pênaltis; tampouco tem relevância se é final de Copa do Mundo ou uma pelada de várzea.

O pênalti tem algo místico, sagrado e, ao mesmo tempo, profano em qualquer lugar. É uma tarefa sobre-humana delegada a simples mortais. O que ocorre na mente de um boleiro durante sua caminhada até a marca da cal é um mistério que Freud, Jung e outros psicanalistas adorariam estudar.

Há muita psicologia num pênalti. Quando a luz dos olhos dos adversários resolvem se encontrar, um tenta enganar o outro. Certamente, o encontro desses olhares dá um frio na espinha de ambos. O batedor tenta mentir com os olhos e goleiro dizer a verdade com as mãos.

Enquanto anda em direção à marca fatal, o jogador sente o vento salpicar-lhe o rosto e a pressão de milhões de almas que torcem pelo seu sucesso ou pelo seu fracasso. O erro ou o acerto não mudará em nada a vida dos torcedores.

Ninguém ficará mais rico ou mais pobre, mais gordo ou mais magro, mais bonito ou mais feio. Mas irá mexer com os sentimentos, causar dor ou alegria. Pode ser tão devastador quanto perder um amor. O pênalti não muda a vida do torcedor, mas mexe. Porém, se mexe, muda. Eis o mistério da bola.

A tensão, a adrenalina, o medo e outros sentimentos devem tomar conta do craque ou do perna-de-pau. “Qual é o melhor jeito de bater, uma paulada no meio do gol ou um inapelável chute rasteiro no canto”, pensa o atleta. O goleiro, por seu turno, deve pensar se escolhe um canto na intuição ou se espera o adversário cobrar. O que é melhor, lembrar dos pênaltis estudado ou seguir o coração?

A penalidade máxima é o único instante em que o homem mais solitário do futebol dificilmente será o vilão. Pelo contrário, pode ganhar asas e saltar milagrosamente. O arqueiro é o cavaleiro da esperança, que ainda conta com a ajuda das traves, que, se quiserem, podem impedir que uma bola entre. Sim, nessas horas o sopro do destino e os deuses do futebol estão mais próximos do homem de luvas do que do homem sem luvas.

Com certeza há mais coisas entre a marca do pênalti e as traves do que a nossa vã filosofia pode supor. Batedores e goleiros chegam ao difícil dilema de ser ou não ser.

Os protagonistas do pênalti não são nada, não podem querer ser nada, nunca serão nada. À parte isso, têm em si todos os sonhos do mundo. A penalidade máxima pode torná-los reais. Ou não.

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