A argentina El Gráfico está comemorando 90 anos. Deve ser a mais antiga publicação do gênero no mundo. No Brasil, tivemos a Gazeta Esportiva Ilustrada de saudosa memória
Mário Marinho
A bem da verdade, não era uma cena das mais comuns, mas,
volta e meia, caía-me às mãos um exemplar da Gazeta Esportiva Ilustrada.
Era uma revista de muitas páginas, muitas fotos – em preto e
branco, porque cor, mesmo, só na capa.
Mas eu admirava a revista e lia mais de uma vez, pois não
sabia quando é que tornaria a receber um novo exemplar.
Isso na periferia de Belo Horizonte, nos antiquíssimos anos
50.
É provável que a revista chegasse às minhas mãos através de
meu irmão mais velho, o Márcio, já mais ligado ao futebol e que até chegou a
ser goleiro profissional do Cruzeiro.
A Gazeta Esportiva Ilustrada circulou de 1953 a 1967.
Naquela época, lia-se muito “Cruzeiro”, revista semanal
dos Diários Associados.
Era uma revista que misturava reportagens escandalosas, denúncias,
casos policiais de grande repercussão, moda feminina, humorismo – enfim, uma
espécie de shopping da notícia com um mix dos mais variados.
Há 55 anos, quando morreu o presidente Getúlio Vargas (25 de
agosto de 1954) “Cruzeiro” chegou a ver suas vendas baterem na casa de um
milhão de exemplares, número só alcançado pela Veja nas bordas do ano 2000.
Um fenômeno de venda, já que nem tinha assinatura. Era só
banca.
El Gráfico o fenômeno argentino das bancas
Esses fatos vêm-me à lembrança porque acabo de receber a
revista da Conmebol (Confederação Sul Americana de Futebol) que traz uma
reportagem sobre os 90 anos da revista argentina “El Gráfico”.
Trata-se, também, de um fenômeno.
O Brasil, país do futebol, é pobre no que diz respeito a
publicações especializadas.
A editora On Line tem uma série de publicações sobre
futebol, sempre pontuais, sempre explorando temas específicos, especiais.
A Trivela é uma revista especializada em futebol
internacional, ainda nova no mercado.
Antiga mesmo é a Placa que data dos anos 70, mas vive sempre
em crise de identidade: já foi semanal, quinzenal, mensal, bimestral, já teve
rock e mulher pelada.
Hoje, é mensal dedicando-se, mais, a reportagens especiais.
Temos dois jornais. O Jornal dos Sports que já foi muito
forte e hoje circula apenas no Rio de Janeiro, e o Lance, jornal forte, bonito,
de circulação nacional.
Leio na revista da Conmebol uma declaração de Alfredo Di Stefano,
lenda viva do futebol argentino e Mundial. Diz ele:
“O sonho de todo menino argentino era jogar na Primeira
Divisão, chegar à Seleção e sair na capa de El Gráfico”.
Assim como o Brasil esperava ansioso o novo número de “O
Cruzeiro” às segndas-feiras (em Belo Horizonte às terças), Buenos Aires corria
atrás de El Gráfico às tardes das quintas-feiras.
Era também um fenômeno de venda. Nos anos 40, vendia cerca
de 250 mil exemplares por semana; com Maradona na capa, na conquista da Copa de
1986, vendeu 795 mil exemplares e mais não foram vendidos porque acabou o papel
da gráfica.
Os números de hoje já não são tão exuberantes e a revista,
para sobreviver, passou a ser mensal.
Há uma crise na chamada imprensa escrita, uma crise que não é
brasileira, mas mundial.
Mas que seria bom ter uma revista esportiva semanal no Brasil,
ah!, isso seria.