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Literatura futebolística

Djalma, de todos os Santos.

Nasceu Dejalma Santos, em fevereiro de 1929. ainda hoje, em Uberaba-MG, onde mora, participa de um joguinho semanal com os amigos. Aqui, a homenagem do Universo da Copa e esse que foi um dos maiores laterais-direito do futebol mundial.

AYRTON PELIN

Djalma Santos

Porque me faz o visionário que rabisca o diário com coisas impossíveis de acreditar:- o silencio do mestre na arte de jogar e a bola com vontade de engravidar.  Ébano de esperança plantado no verde de um campo gramado que desliza e dança e que a toda hora muda de lado enquanto aquele preto elegante permanece quase parado. Ë que ele sempre conheceu a senha – “Eu não vou. A bola que venha”.

Djalma Santos

Djalma Santos

é poesia doce e concreta

Um perfeitíssimo esteta

do choro ou maxixe, baião e valsinha.

Haroldo de Campos e Luiz Gonzaga

mergulhando em Gonzaguinha

É novembro e eu me lembro

do  dia de Todos os Santos

e são tantos os santos

de quem eu me lembro

que me benzo a cada instante

por Antonio, por João, por Tadeu,

por Zebedeu, por Almirante,

por Antonio, por Pedro, por Crispim,

e é até por Santo Hilário

que eu me benzo, por fim.

Rezo com calma

e dependuro a alma

no velho vestiário

que ainda mora em mim.

Mas, santo Deus,

no meio de tanto santo

dá-me, Senhor, o encanto.

de ver outro santo,

santo, santo, santo,

chamado Djalma.

Onde morava a classe.

Onde dormia a palma.

Garoto preto, pernas de mola,

batendo sola na sapataria.

Quem pensaria que a cola

do sapatão rasgado

se mudasse num repente

para a

chuteira do moleque

onde grudasse a bola

onde morresse a bola

onde dormisse a bola

mansa e inconsequente

como uma gata

em teto de zinco

levemente quente.

Festa na várzea, bola no chão,

calças curtas, linha de pipa,

jogo de sela e pião

à sombra do pessegueiro

quando fugia, de dia,

o aprendiz de sapateiro

com sonhos de aviador

e coração de avião.

Até que a prensa, que não pensa,

num segundo lhe esmaga a mão.

Mas não tem nada não

que o tempo se fará espaço

e por conta do defeito feio

a mão será de aço

e baterá escanteio.

Pé direito sobre a bola

que se amansa e espera

assim como o inverno

prepara a primavera.

O olho fixo no adversário

que se queda paralisado

de modo vário, quase um otário.

Puxa a bola sobre o pé sinistro

e ela salta meio metro

como bolha de aquário

enquanto o pé direito

com precisão e jeito

beija a boca da pelota

e ela rola no ar, contente,

na frente do quase defunto

enquanto a multidão

solta um oh!  conjunto.

Ah! nos  bares da Paulicéia

há de sobrar assunto.

Como sobrou espanto

na Estocolmo sueca

quando o homem

(quase um profeta que visita Meca)

vestiu o manto

pintado de azul

e naquele céu

 “nel blue di pinto di blue “

virou miragem;

negro valete

sem tatuagem

ou  cabelo rastafári,

africano Portinari

que trocou o pincel

por trincha

e olhando as costas

de Garrincha

resolveu “pintar o sete”.

E pintou e bordou

com  tanta luz,

tanto fogo,

feito um demônio possesso,

feito um anjo  fecundo

que, por um único jogo,

virou o melhor do mundo.

Santo, santo,  santo,

é esse senhor de piche

que,  Ave Maria,  “vixe “,

não é apenas um,

são tantos.

E aquele lado do campo,

(aquele doce gramado)

chamado

“lateral direita”,

deveria ser batizado

( sem nenhuma desfeita )

de  “Espaço Djalma Santos”.

Ayrton Pelim, dono de 58 anos bem vividos, se define como “ligadão nas coisas de Deus, namorado da natureza, metido a fazer poesias, doutor em fazer amigos." É formado em Ciências Físicas e Biológicas; em Letras e em Administração de Empresas. E sempre encontrou tempo – ainda bem – para crias crônicas como as que estamos publicando neste universo, vasto Universo da Copa.

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