Geralmente, o grevista pensa apenas e tão somente no objetivo a alcançar. Não passa por sua cabeça os transtornos que pode causar a outras pessoas. Principalmente, alguém com ressaca!
Texto: Mário Marinho
Os operários sulafricanos estão em greve e colocam em risco (sem entrar no mérito da greve) algumas obras essenciais à Copa do Mundo de
2010.
Esse movimento grevista me lembra uma situação que vivi na
Copa de 1990, na Itália.
A Seleção Brasileira, mal comandada e mal dirigida, pelo mau
técnico Sebastião Lazzaroni, foi eliminada pela Argentina, 1 a 0, no belo Estádio Dell
Alpi, em Turim, numa bela tarde de domingo do verão italiano.
Logo pela Argentina! Dor em dobro.
Quase todos os jornalistas brasileiros estavam hospedados na
aprazível cidade de Asti, onde se concentrava também a seleção.
Na segunda-feira, quase todos se preparavam para voltar ao
Brasil, tristes e indignados. Para amenizar a situação, o jornalista brasileiro
Giusepe Lo Russo, na época chefe de
imprensa da Credicard (patrocinadora oficial da Copa) resolveu oferecer um
jantar de despedida.
O prato: feijoada para matar a saudade de alguns, como eu, que
já estavam fora do Brasil há uns dois meses e, portanto, dois meses sem ver
feijão.
A combinação perigosa de feijoada, saudade e cerveja fez com
que o jantar acabasse por volta das seis horas da manhã daquela terça-feira.
A entrada do trem no túnel tinha o mesmo efeito de uma bomba explodindo. Claro, explodindo bem ali, ao meu lado.
Desnecessário dizer o lastimável estado com que a
maioria de nós saiu daquele restaurante.
Parêntesis: Giusepe,
que havia levado do Brasil todos os ingredientes da feijoada, muito competente,
não esqueceu, sequer, da honesta cachaça. O que contribuiu para aumentar em
muitos graus o estado etílico de cada um. Fecha parêntesis.
Eu fui dormir à seis horas e levantei às dez. A ressaca era
avassaladora.
Tomei demorado banho; obriguei-me a um desjejum que não
queria descer; arrumei as malas e peguei o carro rumo a Turim, onde eu deveria deixá-lo
e pegar um trem para Roma, às 12,12 horas. Quanta precisão!
À medida em que fui vencendo os 60 minutos que separam Asti
de Turim minha ressaca foi aumentando. A cabeça doía e a sede castigava.
Perdi um tempo danado com a burocracia para entregar o
carro.
Cheguei à estação ferroviária exatamente às 12 horas. Como
mineiro não perde trem, resolvi ocupar logo o meu lugar.
Meu raciocínio foi lógico: me acomodo, espero o trem sair e
me transfiro para o vagão restaurante, onde poderei tomar umas cervejinhas e
combater a ressaca.
Assim que o trem se colocou em movimento, me aprumei, feliz,
e perguntei a um funcionário onde ficava o restaurante. Ele respondeu:
- Scioppero! Scioppero!
Como não entendi, ele, cheio de gestos, procurou me fazer
entender:
- Chiuso! Chiuso!
Acabei entendendo: o bar estava fechado pois os funcionários
estavam em greve. Não havia serviços, nem mesmo um mísero copo dágua.
Além disso, o trem entrou na chamada operação padrão e a
viagem que deveria durar seis horas (chegada em Roma às 18 horas), durou 12
horas e chegamos na Cidade Eterna quando já passava da meia noite.
Foi a mais longa e terrível viagem que já fiz até hoje. A
sede era insuportável. Os lábios ressecados pareciam que iriam se partir a
qualquer momento. A cabeça doía e o barulho do trem parecia medir por volta dos
mil decibéis. Cada entrada num túnel parecia uma explosão. O leve balançar dos
vagões me fazia sentir como no meio de uma turbulência daquelas de derrubar aviões.
Ao chegar em Roma eu não tinha certeza sequer de estar vivo –
nem mesmo de onde estava, se é que estava.
Já era madrugada e os bares da estação estavam todos
fechados. Somente ao chegar a hotel consegui uma garrafinha de água. Juro,
nunca pensei que água pudesse ser tão saborosa!
Ah!, senhores grevistas, os senhores não imaginam quanto
sofrimento pode trazer uma greve, por mais justa que ela seja.