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Literatura futebolística

Lendas Urbanas

Do zagueiro que matou o irmão, goleiro, numa cobrança de pênalti à loura que entra no cemitério à meia noite ou ao filme de John Wayne, quem nunca viveu uma lenda urbana?

John Wayne

Mário Marinho

Levado pelas seguras mãos de meu pai eu ia quase todo domingo assistir aos jogos do Parque Riachuelo, temido time da várzea da pacata Belo Horizonte dos anos 50. Naquele campo empoeirado e cercado por barrancos e matos, o Parque era quase imbatível. E seu time tinha um zagueiro que me chamava a atenção de um modo especial. Seu nome: Neném Traíra.

Não por sua pança avantajada, por sua falta de categoria (eu pouco entendia de futebol) ou por seus fortes chutes de bico. Mas o que me tocava era a história que se contava a respeito de Neném Traíra.

Dono de um potente chute, certa vez foi chamado para cobrar um pênalti. No gol do outro time, estava seu irmão considerado um dos maiores goleiros da época. Neném foi até lá e pediu ao mano:

- Saia do gol. Chuto muito forte, você pode até morrer.

O irmão respondeu, resoluto:

- Morro, mas morro cumprindo o meu dever.

Neném tomou imensa distância como costumava fazer, correu sacudindo a pança e bateu forte, de bico. O goleiro pulou e agarrou com firmeza. O zagueirão foi até lá cumprimentá-lo. Quando tocou nele, viu seu corpo inerte tombar: estava morto.

Confesso que cheguei às lágrimas quando ouvi a história pela primeira vez. E a cada partida eu pensava: como ele pode continuar jogando se matou o próprio irmão?

Essa história me acompanhou por muitos e muitos anos até ser levada com o vento dos anos.

Tempos e tempos mais tarde, já adulto, jornalista e morando em São Paulo, fiquei sabendo que a mesma história acompanhou outro jornalista, Fernando Mitre. Só que aconteceu lá na terra dele, cidade de Oliveira, Interior de Minas Gerais. Claro, os personagens eram jogadores locais.

Quantas lendas nos acompanharam pela vida? Ou você nunca ouviu falar naquela loura linda que o namorado resolveu seguir uma noite e a viu entrando no cemitério! Ela morava no cemitério!

Naquelas noites sem televisão e sem os temores de hoje, essas histórias ganhavam vida, magia e tremendo suspense, mesmo se repetidas – como quase sempre acontecia.

O futebol anda cheio dessas lendas. Luizinho, o Pequeno Polegar do Corinthians, que infernizava seus adversários dos anos 1950/60, com dribles incríveis. Virou lenda:

- Ele passava entre as pernas do marcador dele!

- Ele sentou na bola!

- Uma vez ele passou pela defesa toda, até pelo goleiro e voltou pra driblar todo mundo outra vez!

Ouvi histórias assim de um sem-número de corintianos fanáticos. Claro, nenhum deles viu o fato acontecer, mas quem conta sempre conhece alguém que viu ou é amigo do amigo do amigo de quem viu o fato.

As lendas são assim: crescem, ultrapassam fronteiras e ninguém dá a mínima se houve testemunhas ou não.

Até o grande diretor do cinema John Ford, no inesquecível faroeste “O homem que matou o facínora”, com James Stewart e John Wayne homenageou a lenda ao determinar: “Quando a lenda torna-se um fato, publique-se a lenda”.

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