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Literatura futebolística

Pelé - homem, mago, fera, deus.

A Pelé, que faz aniversário hoje, dia 23 de 0utubro (69 anos)a nossa homenagem com o poema de Ayrton Pelli, Poeta do Universo.

PELÉ PERFILAYRTON PELIN

Porque me lembra Maria, mãe do universo inteiro, que disse certa vez ao seu filho carpinteiro, enquanto olhava para o oeste : -  “Um dia, virá uma mulher chamada Celeste que vai entregar ao mundo, um artilheiro, e ele será mais doce que o mel, mais amargo que o fel e  mais perigoso que a peste. Será a expressão mais pura do amor e da dor, outro milagre do Senhor, e nascerá brasileiro. Na noite, vai brilhar a estrela guia, os galos vão cantar em sinfonia e a lua se enluarará aos borbotões. Três reis seguirão a claridade e  descansarão a própria santidade  na  vila de Três Corações. E, além de incenso, mirra e ouro, levarão uma bola de couro e a noção de gigantesca imensidade. O menino já vai nascer escola, abraçará a bola e será dela, para sempre, a  majestade. E - concluiu Maria, ao deusinho perfeito - confia  em tua mãe, menino,  porque  é desse jeito  que é feito o destino."

Porque me lembra as sete maravilhas do mundo antigo, criadas por amor  e fé. Ele é a estatua do Zeus majestoso plantado em Olímpia por Fídias, o grego, voando feito morcego nos jardins suspensos da Babilônia do rei Nabucodonosor. Porque ele é  a malandragem compactada de todos os meninos e, quando surge na boca do túnel, à luz do sol, é a Santíssima Trindade do futebol; as Pirâmides de Gizé – “Queóps, Quefrén e Miquerinos”. Ele é o Templo de Artemis em Éfeso, a deusa grega de extrema elegância e beleza, e a fortaleza do Colosso de Rodes protegendo a ilha. Ele é a quilha do navio rompendo a defesa enquanto sepulta o adversário a cada passo, no Mausoléu de Helicarnasso. Ele é, enfim,  o encontro do movimento com a magia,  o nosso sol de cada dia, e na escuridão que se fez no tempo, no campo e no espaço, o  Farol de Alexandria.

Porque me lembra as sete maravilhas do mundo moderno, o anjo eterno que cria o inferno na barreira do inimigo e por castigo lhe impõe sempre a mesma sina;  a de saber que, ele  sim, é que é a Muralha da China, cuja perseverança não se cansa de balançar a rede fina. Porque ele é o Palácio de Petra, a perfeição da engenharia, a curva torta e a linha reta de preciosa ourivesaria – negro escavado na rocha e a tocha de luz que o porto alumia. Porque ele, no gramado, é o mistério de Macchu Picchu, assossegado, pedra inca, que finca as garras de guerreiro, no goleiro derrotado. Porque ele é a serpente que se faz de inocente e surge, de repente, em  Chichu Itzá, a pirâmide mexicana. Dá o bote, aperta o garrote e o defensor se desfaz em dor diante da fera insana. Porque ele é a desconstrução de Prometeu, é o ateu que crê em Deus, e o Deus romano que põe abaixo o Coliseu. Porque ele é o Taj-Mahal do amor da bola,  a linha que descola o olho da retina, aquele que olha a bola como menina e que feito um Romeu moderno, lhe jura o amor eterno. Porque ele leva um crucifixo no peito onde a pelota para e, “avis rara”, faz seu ninho. Porque ele é o gavião e o  passarinho , os Andes e o condor, e por obra do Senhor, paira sobre a nossa alma Guanabara  feito o Cristo Redentor.

 Porque ele é o jogador de Deus, o gramado de Buda e as traves de Alá.

Porque igual nunca houve, aqui não existe e jamais  haverá

                       PELÉ

Quando Pelé aparecia

no túnel  do  Maracanã

a manhã dos tempos  surgia,

feito rainha,

e no campo chovia flor;

a grama se curvava

e a bola gemia de amor,

coitadinha;

e pensava:

“É a hora do carinho.

lá vem meu paizinho,

meu namorado

descolado

caminhando no ar

feito um deus.

Hoje vai ter afago,

porque o mago vem vindo,

e eu vou  girar, rolar e gozar,

eu vou  matar minha sede

e,  graciosa,

em curva luminosa

estufar a rede;

por isso vai ser lindo.

Ele vai falar ao meu ouvido

e duvido que alguém nos ouça

e se intrometa entre nós três,

ele, o gol e eu.

Eu sou sempre freguesa dele

e ele é o meu melhor freguês.

Vamos trocar todas as línguas

Enquanto eu falo em português.

Ele fala comigo em grego

espanhol ,  russo e inglês.

Eu converso em brasileiro,

faço peito de goleiro,

abro bolso de doleiro,

invento uma língua esperta,

mas ele me desconcerta

sussurrando futebolês.

E eu muito caprichosa

e, às vezes,  meio vadia,

encho as medidas dele

e ele não me esvazia.

Ao contrário, me submete

e me mete no canto que quer.

Me roça com o canto do pé

me  faz girar feito o vento

e pra contrariar o momento

eu invento uma dor qualquer.

Qual o quê, me arrebento,

a paixão explode por dentro,

entro no ângulo reto,

o coração fica  quieto

e de reles objeto,

eu me transformo em mulher.

Ele é o maior, ele é o tal,

um anjo fenomenal

que me espanca  todo dia,

de esquerda e de direita.

Me chuta, me bate, me mima

e o que é pior, me vicia;

me arrebenta por baixo

e me acaricia por cima.

Não há som que nos explique

e nem palavra que exprima.

É que ele é Pelé.

Me trata como uma flor

e me enche de dor,

de ciúme e vaidade.

Perto dele eu tremo de amor,

longe, morro de saudade.

É que Pelé é cor

Pelé é sem piedade

como num poema reto

de Carlos Drumond de Andrade

Eu sou uma escrava confessa

e como não deveria?

Comigo ele não tem promessa

e conversa fiada não tem.

Eu o chamo de meu nêgo,

ele me chama de meu bem.

Ele já fez comigo

o que quis e o que não quis.

Por mim ele parou guerras

e expulsou até juiz.

Fez descer presidentes,

serenou  descontentes

e redimiu um país.

E eu que sirvo a todo mundo

e já gastei tanto mel

só com ele é que vou fundo

e só com ele fui fiel.

É que ele me diz : “Tem dó,

você pode ser milhões

mas para mim é uma só.”

Então o que resta, por fim,

a não ser essa paixão eterna

que mora dentro de mim?

Vou rolando de noite

Vou girando de dia

entre  o choro e a alegria

fazendo a cada instante

um novo amor acolá

e ali  um novo amante.

Essa é a minha sina de errante

de vadia,  diamante,

Maria, Madalena, Maria.

Todo mundo diz que me tem

Mas, vejam muito bem,

eu permito só um instante.

Depois eu faço besteira

e muita gente brilhante

só percebeu muito adiante

como  a glória é passageira.

E a cada vez que eu me aninho

nos braços da rede fina

me transformando em menina

tem sempre alguém que me  pega

“princesinha, princesinha”

e me leva pro meio do campo

dizendo :-  “Você é minha.”

E, no meio daquela festa,

com trejeitos  de mulher,

eu concordo e digo que é.

Disfarço e  com todo carinho

eu vou suspirando baixinho,

PELÉ, PELÉ, PELÉ”.

Ayrton Pelim, dono de 58 anos bem vividos, se define como “ligadão nas coisas de Deus, namorado da natureza, metido a fazer poesias, doutor em fazer amigos." É formado em Ciências Físicas e Biológicas; em Letras e em Administração de Empresas. E sempre encontrou tempo – ainda bem – para crias crônicas como as que estamos publicando neste universo, vasto Universo da Copa.

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