AYRTON PELIN
Porque me lembra Maria, mãe do universo inteiro, que
disse certa vez ao seu filho carpinteiro, enquanto olhava para o oeste : - “Um dia, virá uma mulher chamada Celeste que
vai entregar ao mundo, um artilheiro, e ele será mais doce que o mel, mais
amargo que o fel e mais perigoso que a
peste. Será a expressão mais pura do amor e da dor, outro milagre do Senhor, e
nascerá brasileiro. Na noite, vai brilhar a estrela guia, os galos vão cantar
em sinfonia e a lua se enluarará aos borbotões. Três reis seguirão a claridade
e descansarão a própria santidade na
vila de Três Corações. E, além de incenso, mirra e ouro, levarão uma
bola de couro e a noção de gigantesca imensidade. O menino já vai nascer
escola, abraçará a bola e será dela, para sempre, a majestade. E - concluiu Maria, ao deusinho
perfeito - confia em tua mãe,
menino, porque é desse jeito
que é feito o destino."
Porque me lembra as sete maravilhas do mundo antigo,
criadas por amor e fé. Ele é a estatua
do Zeus majestoso plantado em Olímpia por Fídias, o grego, voando feito morcego
nos jardins suspensos da Babilônia do rei Nabucodonosor. Porque ele é a malandragem compactada de todos os meninos
e, quando surge na boca do túnel, à luz do sol, é a Santíssima Trindade do
futebol; as Pirâmides de Gizé – “Queóps, Quefrén e Miquerinos”. Ele é o Templo
de Artemis em Éfeso, a deusa grega de extrema elegância e beleza, e a fortaleza
do Colosso de Rodes protegendo a ilha. Ele é a quilha do navio rompendo a
defesa enquanto sepulta o adversário a cada passo, no Mausoléu de Helicarnasso.
Ele é, enfim, o encontro do movimento
com a magia, o nosso sol de cada dia, e
na escuridão que se fez no tempo, no campo e no espaço, o Farol de Alexandria.
Porque me lembra as sete maravilhas do mundo moderno,
o anjo eterno que cria o inferno na barreira do inimigo e por castigo lhe impõe
sempre a mesma sina; a de saber que,
ele sim, é que é a Muralha da China,
cuja perseverança não se cansa de balançar a rede fina. Porque ele é o Palácio
de Petra, a perfeição da engenharia, a curva torta e a linha reta de preciosa
ourivesaria – negro escavado na rocha e a tocha de luz que o porto alumia.
Porque ele, no gramado, é o mistério de Macchu Picchu, assossegado, pedra inca,
que finca as garras de guerreiro, no goleiro derrotado. Porque ele é a serpente
que se faz de inocente e surge, de repente, em
Chichu Itzá, a pirâmide mexicana. Dá o bote, aperta o
garrote e o defensor se desfaz em dor diante da fera insana. Porque ele é a
desconstrução de Prometeu, é o ateu que crê em Deus, e o Deus romano que põe abaixo
o Coliseu. Porque ele é o Taj-Mahal do amor da bola, a linha que descola o olho da retina, aquele
que olha a bola como menina e que feito um Romeu moderno, lhe jura o amor
eterno. Porque ele leva um crucifixo no peito onde a pelota para e, “avis
rara”, faz seu ninho. Porque ele é o gavião e o
passarinho , os Andes e o condor, e por obra do Senhor, paira sobre a
nossa alma Guanabara feito o Cristo
Redentor.
Porque ele é o jogador de Deus, o gramado de Buda e
as traves de Alá.
Porque igual nunca houve, aqui não existe e
jamais haverá
PELÉ
Quando Pelé aparecia
no túnel do Maracanã
a manhã dos tempos surgia,
feito rainha,
e no campo chovia flor;
a grama se curvava
e a bola gemia de amor,
coitadinha;
e pensava:
“É a hora do carinho.
lá vem meu paizinho,
meu namorado
descolado
caminhando no ar
feito um deus.
Hoje vai ter afago,
porque o mago vem vindo,
e eu vou girar, rolar e gozar,
eu vou matar minha sede
e, graciosa,
em curva luminosa
estufar a rede;
por isso vai ser lindo.
Ele vai falar ao meu ouvido
e duvido que alguém nos ouça
e se intrometa entre nós
três,
ele, o gol e eu.
Eu sou sempre freguesa dele
e ele é o meu melhor
freguês.
Vamos trocar todas as línguas
Enquanto eu falo em
português.
Ele fala comigo em grego
espanhol , russo e inglês.
Eu converso em brasileiro,
faço peito de goleiro,
abro bolso de doleiro,
invento uma língua esperta,
mas ele me desconcerta
sussurrando futebolês.
E eu muito caprichosa
e, às vezes, meio vadia,
encho as medidas dele
e ele não me esvazia.
Ao contrário, me submete
e me mete no canto que quer.
Me roça com o canto do pé
me faz girar feito o vento
e pra contrariar o momento
eu invento uma dor qualquer.
Qual o quê, me arrebento,
a paixão explode por dentro,
entro no ângulo reto,
o coração fica quieto
e de reles objeto,
eu me transformo em mulher.
Ele é o maior, ele é o tal,
um anjo fenomenal
que me espanca todo dia,
de esquerda e de direita.
Me chuta, me bate, me mima
e o que é pior, me vicia;
me arrebenta por baixo
e me acaricia por cima.
Não há som que nos explique
e nem palavra que exprima.
É que ele é Pelé.
Me trata como uma flor
e me enche de dor,
de ciúme e vaidade.
Perto dele eu tremo de amor,
longe, morro de saudade.
É que Pelé é cor
Pelé é sem piedade
como num poema reto
de Carlos Drumond de Andrade
Eu sou uma escrava confessa
e como não deveria?
Comigo ele não tem promessa
e conversa fiada não tem.
Eu o chamo de meu nêgo,
ele me chama de meu bem.
Ele já fez comigo
o que quis e o que não quis.
Por mim ele parou guerras
e expulsou até juiz.
Fez descer presidentes,
serenou descontentes
e redimiu um país.
E eu que sirvo a todo mundo
e já gastei tanto mel
só com ele é que vou fundo
e só com ele fui fiel.
É que ele me diz : “Tem dó,
você pode ser milhões
mas para mim é uma só.”
Então o que resta, por fim,
a não ser essa paixão eterna
que mora dentro de mim?
Vou rolando de noite
Vou girando de dia
entre o choro e a alegria
fazendo a cada instante
um novo amor acolá
e ali um novo amante.
Essa é a minha sina de errante
de vadia, diamante,
Maria, Madalena, Maria.
Todo mundo diz que me tem
Mas, vejam muito bem,
eu permito só um instante.
Depois eu faço besteira
e muita gente brilhante
só percebeu muito adiante
como a glória é passageira.
E a cada vez que eu me aninho
nos braços da rede fina
me transformando em menina
tem sempre alguém que
me pega
“princesinha, princesinha”
e me leva pro meio do campo
dizendo :- “Você é minha.”
E, no meio daquela festa,
com trejeitos de mulher,
eu concordo e digo que é.
Disfarço e com todo carinho
eu vou suspirando baixinho,
PELÉ, PELÉ, PELÉ”.
Ayrton Pelim, dono de 58 anos bem vividos, se define como “ligadão
nas coisas de Deus, namorado da natureza, metido a fazer poesias, doutor em
fazer amigos." É formado em Ciências Físicas e Biológicas; em Letras e em Administração de
Empresas. E sempre encontrou tempo – ainda bem – para crias
crônicas como as que estamos publicando neste universo, vasto Universo da Copa.