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Estádios de ponta - Entrevista com Henk Markerink

Entrevista com o empresário holandês Henk Markerink, presidente da Arena Brasil e responsável pela consultoria da Fonte Nova.

http://www.atcb.nl/persberichten/henk-markerink-nieuwe-commissaris-atcb

Por Ivan Nisida

Henk Markerink, arquiteto, engenheiro civil, diretor-executivo da Amsterdam Arena e presidente da Arena do Brasil. (estádio do PSV, em Eindehoven, Holanda)

Henk Markerink é formado em Arquitetura e Engenharia Civil pela Universidade Técnica de Eindhoven, trabalha como diretor-executivo da Amsterdam Arena e presidente da Arena do Brasil. Ambas as empresas são especializadas no planejamento e na construção de estádios modernos.

Em passagem por São Paulo, o empresário concedeu entrevista exclusiva ao Universo da Copa.

Trabalhos

Desde 2005, a Amsterdam Arena está presente em nosso país por intermédio da Arena do Brasil, companhia que já foi contratada por prefeituras, clubes e empresas privadas para realizar estudos em estádios. Entre eles, no Recife-Olinda (Pernambuco), na Arena do Grêmio (Rio Grande do Sul) e na Fonte Nova (Bahia).

Além disso, a Amsterdam promoveu pesquisas de marketing em praticamente todas as sedes da Copa 2014 e é consultora da empreiteira Odebrecht no projeto de reforma da Fonte Nova.

Na África do Sul, sede de 2010, a empresa participa na gestão do estádio Green Point, na Cidade do Cabo.

Arenas nacionais

Segundo Henk, os estádios brasileiros equivalem aos europeus da década de 60, o que revela um descompasso estrutural de nossas construções em relação às arenas de ponta, como a do Ajax, na Holanda.

Na opinião do empresário, elevar a capacidade e a qualidade das arenas funcionaria muito bem no caso brasileiro, uma vez que o futebol é o esporte preferido da maioria da população.

Ele descreve a Copa do Mundo como um “catalisador fantástico para acelerar esse processo, [já que são] muitas oportunidades e muitos estádios a serem desenvolvidos”.

Após elogiar elogiar os projetos vistos no papel, Markerink destacou o fator crucial do tempo, afinal, o primeiro prazo fixado pela FIFA para o início das obras (primeiro de março de 2010) teve que ser postergado. Entre os entraves que barram o andamento dos trabalhos está a lenta definição das licitações.

Multifuncionalidade

“Para nós um estádio moderno é um estádio multifuncional”, disse Henk. “[Ele] é como uma catedral na Idade Média: um lugar de encontro”.

A inspiração para idealizar e projetar tais estádios, modernos e sustentáveis, vem de duas fontes principais. De um lado, os monumentais estádios de futebol americano e beisebol nos Estados Unidos, como por exemplo o Sky Dome de Toronto (Rogers Center). Do outro lado, o Velho Continente oferece o estilo a ser aplicado no estádio.

Sustentabilidade

Markerink destaca que a sustentabilidade de um projeto de passa pelos seus aspectos sociais e econômicos.

Na filosofia descrita pelo empresário holandês, destaca-se a PPP, sigla que designa em inglês “Profit, People and Planet”.

A primeira fase de avaliação de qualquer projeto passa justamente pela sua viabilidade econômica. Mais que isso, pela sustentabilidade no que diz respeito à geração de renda. É a primeira pergunta que surge; “Este estádio é economicamente viável?”. Para isso, traça-se um detalhado planejamento do estádio e de seu entorno como produtor de riqueza. O foco é evitar que a construção se torne um onipotente estádio-fantasma, maculado pela síndrome do Elefante Branco. Ou seja, combater estádios ociosos, custosos e com baixo retorno econômico.

Nessa lógica, o estádio de futebol planejado e sustentável fomenta naturalmente o crescimento e valorização econômica das regiões circundantes em sua órbita. Busca-se assim um geração de renda mínima, fomentando um sistema de sustentação auto-regulatório e autônomo. O estádio deve “andar por si só”, sem criar peso para os clubes ou entidades do governo. Em suma, para Henk, um estádio de futebol deve ser um produto de longo proveito e uso contínuo.

As soluções vislumbradas para evitar esse problema passam por fixar um “time da casa” (caso do Ajax, na Amsteram Arena) ou até mesmo duas equipes (como ocorre no estádio San Siro de Milão). Nesse caso, Milan e Internazionale, os dois grandes clubes locais, partilham o espaço permitindo que o local seja mais ativo. Além dessa “dupla posse”, Markerink ainda destaca a importância de atividades que ultrapassem a esfera futebolística tais como shows de grande escala, festas religiosas e manifestações políticas.

Pensando no Brasil, a baixa frequência de torcedores figura como um problema crônico nessa discussão. “Não se vêem muitos estádios cheios.” declarou o diretor da Amsterdam Arena. Com efeito, algumas das subsedes que hospedarão as partidas do Mundial de 2014 correm o risco de ter que arcar com enormes estádios para 50 mil pessoas sem público para preenchê-los. É o caso de Rio Branco, Cuiabá e Brasília, cidades sem grande tradição futebolística. Para agravar o quadro, o Governo federal não logrou grande apoio de setores privados para erguer os palcos da Copa de 2014, tendo que investir quase R$ 5 bilhões por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

O custo da sustentabilidade

Do ponto de vista ecológico, uma das polêmicas mais signficativas toca o ônus financeiro inerente à instalação de tecnologias modernas e ambientalmente corretas. A mesma ideia pode ser aplicada na adaptação do estádio à multifuncionalidade. Vale a pena investir mais para criar uma obra sustentável?

Segundo Henk, o planejamento minucioso é imprescindível para que a auto-sustentabilidade funcione. E ainda acrescenta: “As pessoas estão olhando o estádio em uma via de mão única”. O estádio se mantém pela sua capacidade de gerar renda e pelos satélites econômicos à sau volta.

Já entre as tecnologias emergentes para estádios, Markerink frisou o processo de reciclagem da água pluvial para os banheiros e irrigação de gramados. Outra alternativa é o uso de energias limpas com painéis solares e turbinas eólicas. Menos conhecido, um sistema de armazenamento de energia permite armazenar o calor do ar quente de verão e prover aquecimento ao longo dos rigorosos invernos. Há de se ressaltar que tais mecanismos ainda não se fixaram de fato nos estádios europeus, vigorando ainda em estágio incipiente.

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