Ontem, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma entrevista com o ministro dos Esportes, Orlando Silva Júnior. Na conversa, Silva destacou que os projetos dos estádios devem ser mais modestos e que o governo federal não deve investir em arenas e ainda afirma que a Copa não é a salvação para as cidades-sedes
FOLHA -
A África do Sul está fazendo uma Copa com gastos modestos [a estimativa é de US$ 3,5 bilhões]. Por que o Brasil vai gastar tanto?
ORLANDO SILVA JR
. - Não esperemos que a África faça um Mundial como a Alemanha, assim como não esperemos que o Brasil faça uma Copa como a da África. A realidade de cada país vai moldar a Copa. O que o Brasil fará é otimizar os recursos, sem gastar rios de dinheiro. Pretendemos fazer investimentos necessários para que os estádios tenham segurança e conforto, e as cidades tenham bons sistemas de transporte, acomodação e segurança.
FOLHA
- É justo tirar dinheiro de todos os contribuintes para colocar só em 12 cidades?
SILVA JR
. - Todos os contribuintes serão beneficiados. Com a Copa, teremos mais investimento privado girando na economia do que recurso público. A Copa funciona como medida anticrise. Vai ajudar o Brasil a acelerar seu crescimento.
FOLHA
- O senhor crê em investimento para transporte e aeroportos ou essa conta vai ser só do governo?
SILVA JR.
- Eu acredito que a Copa terá investimento público e privado. O Brasil já desenvolveu modelos interessantes para atrair o setor privado. Vou dar um exemplo concreto: o sistema de concessão de rodovias. Por outro lado, eu admito a hipótese de que haja financiamento público para determinados projetos. Mas, na minha cabeça, isso é uma operação bancária, não é dinheiro direto do Tesouro. O dinheiro público, sobretudo, deve ser investido em obras de infraestrutura.
FOLHA
- O que a Fifa pede nesse sentido?
SILVA JR
. - A Fifa nos indicou que é muito importante investir em aeroportos. Há muitas cidades que têm seus terminais funcionando no limite de operação. Vamos precisar ampliá-los. Em outros, precisamos ampliar as pistas. Também temos interesse nos portos. Não imaginemos que a pessoa vai construir um hotel apenas para a Copa. Se você tem terminal de passageiros nos portos, você pode permitir um conjunto de transatlânticos circulando pelo país, com leitos temporários, para suprir as acomodações.
FOLHA
- O senhor admite financiamento do BNDES para os estádios?
SILVA JR
. - Essa pergunta deveria ser feita ao Luciano Coutinho, que é o presidente do banco. O BNDES tem critérios técnicos muito rigorosos. E o banco tem uma equipe de análise de risco muito firme. Se pode ter ou não, vai ser analisado na medida em que os interessados passarão por esses critérios.
FOLHA
- Dinheiro para os estádios vai ter?
SILVA JR
. - Do governo federal, não.
FOLHA
- E se...
SILVA JR
. - Já ouvi que há governo estadual que se interessa em construir ou reformar estádio. Esse é um tema que está fora da pauta do governo federal. Nos Jogos Pan-Americanos, houve dinheiro do Tesouro para instalações, mas não haverá R$ 1 para estádio de futebol.
FOLHA
- E se chegar uma hora em que vão falar: "Se não tiver dinheiro do governo, não vai ter estádio'?
SILVA JR
. - Essa hipótese não existe.
FOLHA
- Como o senhor pode garantir isso?
SILVA JR
. - Veja, desde que a Fifa escolheu as cidades-sedes, temos feito um trabalho para firmar uma matriz de responsabilidade, um pacto entre o governo federal, os Estados e as prefeituras. E, nessa matriz, vai estar explícito que o governo federal não tem nenhum compromisso com qualquer investimento para estádios. As cidades apresentaram projetos e vão ter que sustentá-los.
FOLHA
- O fato de o Tribunal de Contas da União ter apresentado várias irregularidades na gestão do dinheiro público tem a ver com isso?
SILVA JR.
- Não. O Brasil tem leis, critérios, e a administração tem que segui-los. A restrição em relação a estádios é um conceito. Já fui mal interpretado pela seguinte opinião: o governo tem mais o que fazer do que cuidar de estádio. Quando se tem um duto público financiando aquela instalação, a preocupação com a sustentabilidade acaba sendo menor.
FOLHA
- Não há exagero em estádios como o de Manaus, por exemplo, para 60 mil pessoas?
SILVA JR
. - Defendo que os estádios sejam modestos e que se cumpram os critérios adotados pela Fifa, que já é um padrão superior ao brasileiro hoje.
FOLHA
- Então, há exagero?
SILVA JR
. - Defendo que a modéstia seja o padrão para a preparação dos estádios. Assim, não teremos riscos de elefantes brancos, de estádios enormes com utilização uma vez por ano. É preciso levar em conta o perfil de cada cidade sob o ponto de vista do futebol.
FOLHA
- E o Morumbi, é um problema?
SILVA JR
. - Até onde sei vai ser o estádio de São Paulo na Copa. É o estádio que a Fifa tem referência, mas precisa de ajustes. O projeto foi criticado pela Fifa, e Juvenal Juvêncio [presidente do São Paulo] me disse: "Farei as modificações que a Fifa exigir para atender aos critérios para a abertura do Mundial". Palavras dele. Não vejo como problema, vejo como solução.
FOLHA
- São Paulo comporta outro estádio?
SILVA JR.
- Qualquer discussão fora o Morumbi é extemporânea. Sei que o Corinthians quer construir seu estádio, mas não seria para a Copa do Mundo.
FOLHA
- Se o PT e seus aliados perderem a eleição de 2010, a Copa pode ser afetada?
SILVA JR.
- Se um candidato de fora da base aliada ganhar a eleição, não tenho preocupação com a Copa. O Brasil tem estabilidade democrática. Os documentos que o presidente Lula e os governadores assinaram mostram compromisso com a Copa. E nenhuma eleição vai atrapalhar isso.
FOLHA
- Quando era ministra do Turismo, Marta Suplicy estimou que o governo federal iria investir R$ 38,5 bilhões em obras para a Copa. O número é esse?
SILVA JR
. - Não conheço detalhes desse projeto. O certo é que falar em qualquer número hoje é mera especulação. Só que a Copa não vai ser a panaceia para resolver todos os problemas das 12 cidades.
FOLHA
- Evitar falar quanto vai custar a Copa é um aprendizado do Pan, que custou várias vezes mais do que o orçado inicialmente?
SILVA JR
. - Foi um erro não ter um planejamento detalhado no Pan. A segurança estava prevista para custar R$ 13 milhões. Era um número absurdo. Acabou custando R$ 500 milhões. Aprendi no Pan que não se deve especular em torno de números. O importante é fixar a matriz de responsabilidades: quem faz o quê, quem paga o quê. Isso é bom para o governo saber o que vai lhe caber nesse latifúndio. É bom para evitar um desgaste com a opinião pública. Se você fala que custará x, e acaba custando cinco vezes x, a opinião pública fica incomodada, pois é dinheiro público.
FOLHA
- Quando saberemos quanto vai custar para o governo a Copa?
SILVA JR
. - Vou poder falar até o fim do ano qual será a parte do governo federal. Este número já tem que estar no Orçamento de 2010, quando teremos que fazer licitações, iniciar as obras. Mas é claro que será um número estimado, que pode ter redução de custo em uma licitação ou ter majoração por causa da execução de uma obra.
FOLHA
- Quais são as chances de o Rio sediar a Olimpíada de 2016?
SILVA JR
. - Nossa candidatura é muito forte. Nenhuma outra candidatura exibiu as garantias governamentais que o Rio ofereceu. Não se surpreenda se o Rio for vitorioso.
FOLHA
- O que vale para a Copa, em que o governo diz que não vai gastar com arenas, vale para os Jogos Olímpicos de 2016?
SILVA JR
. - São coisas diferentes. Copa é uma modalidade só. E o futebol no Brasil tem um peso diferente. Existe demanda. A economia do futebol suporta. A Olimpíada tem modalidades sem muita tradição. Muitas vezes construir instalações para elas é até bom. Instalações para modalidades olímpicas terão abordagens diferentes.