Nenhum país vai escapar ileso da crise. Mas o governo brasileiro poderia adotar uma série de medidas que, em pouco tempo, ajudariam a economia a sair mais forte lá na frente.
Portal Exame
27 de novembro de 2008
Por Angela Pimenta
Após
dois meses de crise global acirrada, o mundo todo já se acostumou com a
idéia de que ninguém vai escapar ileso desta - a questão agora é saber
a magnitude do impacto. Para que o baque seja o menor possível, o
governo brasileiro tem uma oportunidade única de promover uma "operação
faxina" no funcionamento da economia, eliminando o cipoal burocrático
que atrasa investimentos, inibe a criação de empregos e deprime o
crescimento. Segundo o Banco Mundial, que publica um ranking sobre o
ambiente de negócios em 181 países, em 2009 o Brasil despontará na 125ª
colocação, atrás do Paraguai e da Etiópia. Entre outros prejuízos, a
barafunda burocrática retarda a construção de hidrelétricas, pereniza o
caos nos aeroportos e eleva os custos de exportação - todos esses
setores integram o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado há
quase dois anos pelo governo e que até agora não decolou.
Não se trata
de ignorar que o país ainda tem pela frente uma necessidade gritante de
reformas constitucionais profundas que dependem de maioria qualificada
no Congresso e tendem a levar anos até ser aprovadas. O ponto é notar
que, no curto prazo, muitos gargalos da economia podem ser eliminados
pelo Poder Executivo com a revisão de regras esdrúxulas e com mais
agilidade decisória. "Além de posicionar o país para uma futura
retomada do crescimento global, a diminuição da burocracia melhoraria a
percepção do Brasil perante os investidores", diz Paulo Godoy,
presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de
Base (Abdib). A seguir, seis exemplos de gargalos que, se removidos,
beneficiarão o crescimento.
1 - Terceirização de funcionários
Com
algum empenho do governo junto às suas lideranças no Congresso, seria
possível aprovar rapidamente o Projeto de Lei no 4.302, que acaba de
desembarcar na Câmara e trata da regulamentação do mercado de trabalho
de aproximadamente 10 milhões de funcionários terceirizados no país. A
grande novidade do texto é permitir a contratação de terceirizados não
apenas nas chamadas atividades-meio, como segurança e limpeza, já
autorizada hoje, mas também nas atividades-fim das empresas. "Esperamos
que a lei seja aprovada até o próximo mês de maio", diz Francisco
Gadelha, porta-voz da Confederação Nacional da Indústria para questões
trabalhistas. Mas, apesar de garantir amplos direitos aos funcionários,
a matéria, que vem sendo negociada há 14 anos no Congresso, ainda
enfrenta resistência das centrais sindicais. "Essa lei seria um avanço
enorme para o mercado de trabalho brasileiro", diz José Pastore,
professor da Universidade de São Paulo e especialista em questões do
trabalho. "Estudos feitos no mundo inteiro confirmam que a
terceirização adequada aumenta a eficiência das empresas e a
qualificação dos funcionários terceirizados."
2 - Setor elétrico
Segundo
um levantamento da Associação Brasileira dos Investidores em
Autoprodução de Energia Elétrica (Abiape), que representa empresas como
Vale e Gerdau, existem nada menos do que 12 pedidos de licenciamento de
usinas pendentes há pelo menos seis anos no Ibama e nas secretarias de
Meio Ambiente de Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina. Juntas, tais
hidrelétricas têm potencial de geração de mais de 2 300 megawatts, o
equivalente às usinas operadas pela AES Eletropaulo no rio Tietê. Uma
vez licenciados, esses empreendimentos devem gerar um investimento de 7
bilhões de reais e a criação de 28 000 empregos diretos durante sua
construção. O caso mais flagrante é o do licenciamento da usina de
Santa Isabel, do consórcio Gesai, liderado pelas mineradoras Vale e BHP
Billiton, que já dura sete anos. Leiloada em 2001, a concessão de Santa
Isabel, a ser erguida no rio Araguaia, entre Pará e Tocantins, custou
123 milhões de reais ao consórcio. Em 2002, alegando que o rio deveria
permanecer virgem, o Ibama declarou que a usina era inviável. Mas,
recentemente, sinalizou que vai reavaliar a licença de Santa Isabel.
"Se a usina for licenciada, as obras poderiam começar já em 2009", diz
Mário Menel da Cunha, presidente da Abiape. "O atraso penaliza o
próprio meio ambiente e os consumidores, pois a alternativa são as
termelétricas, que produzem energia mais cara e poluente." No curto
prazo, o Ibama e os estados deveriam dar prioridade ao licenciamento
dessas usinas. Mais à frente, é preciso que as leis ambientais do país
sejam revistas e que o processo de licenciamento seja racionalizado.
3 - Turismo
Para
atrair mais visitantes estrangeiros, sobretudo os americanos, uma boa
providência é o fim da exigência de visto para turistas. Nesse caso, o
governo teria de vencer a resistência do Itamaraty, que prega a
reciprocidade em relação ao tratamento dado ao turista brasileiro nos
Estados Unidos. Segundo a Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), em
2007 o Brasil recebeu cerca de 700 000 turistas americanos. "Se o
Brasil desistir do visto, mesmo com a crise o número de turistas
americanos cresceria cerca de 30%, gerando uma receita adicional de 350
milhões de dólares por ano", diz Pedro Fortes, autor de um estudo sobre
o tema para a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih).
4 - Aeroportos
A
fim de eliminar o caos aéreo, a Agência Nacional de Aviação Civil
(Anac) estuda um modelo de concessão privada para os 68 aeroportos
geridos pela Infraero, estatal célebre por apadrinhamento político e
por corrupção em obras de ampliação de aeroportos como o de Guarulhos,
em São Paulo. A Anac não comenta o assunto, mas estima-se que o plano
de concessões seja anunciado em 2009. "Se o governo quiser garantir o
cumprimento do cronograma da Copa do Mundo de 2014, deve fazer a
concessão dos aeroportos à iniciativa privada", diz André Castellini,
consultor da Bain especializado no setor aéreo. Outra questão
importante é o futuro da Infraero. O governo tem emitido sinais
contraditórios a respeito, ora sinalizando que vai privatizá-la, ora
dando a entender que ela permanecerá como estatal. O ideal seria que o
governo a privatizasse, tornando-a mais eficiente. "No futuro, a
exemplo do que já acontece com a Eletrobrás no setor elétrico, o
monopólio da Infraero precisará ser quebrado e ela deverá se submeter a
licitações, como as demais empresas do ramo", diz Paulo Godoy, da
Abdib. O resultado deve ser ganhos de eficiência, segurança e conforto
para os 110 milhões de passageiros que utilizam os aeroportos do país.
5 - Gás e petróleo
Eis
um caso único em que o que se espera do governo é a inércia - que ele
aposente de vez os planos de mudar a Lei do Petróleo para criar mais
uma estatal a fim de cuidar dos lucros da camada do pré-sal. "Só assim
o governo restauraria a segurança jurídica para os investidores
privados, facilitando a exploração dos novos campos", diz Adriano
Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura. Num país que já
tem a Petrobras, a manutenção do atual marco regulatório facilitaria o
financiamento privado da exploração de petróleo em águas
ultraprofundas, uma empreitada estimada entre 400 bilhões e 1,3 trilhão
de dólares. Nem a Petrobras nem a União têm os recursos necessários.
6 - Criação e fechamento de empresas
Nesse
quesito, a solução passa pela alteração da legislação federal. Mas o
benefício para o país mais do que justifica o esforço do governo no
convencimento dos congressistas. Segundo o tributarista e ex-diretor da
Receita Federal Everardo Maciel, com uma nova lei seria possível abolir
a atual via-crúcis de 18 procedimentos exigidos para abrir um negócio
no país. A solução é criar um cadastro fiscal unificado, dispensando as
inscrições municipal e estadual, entre outras obrigações, como o alvará
do Corpo de Bombeiros. Outra novidade seria a permissão para que novas
firmas fossem abertas e fechadas em qualquer órgão tributário ou junta
comercial, e não apenas nos cartórios de registro. "Essa nova lei seria
uma verdadeira revolução no ambiente de negócios do país, beneficiando
cerca de 400 000 firmas por ano", diz Maciel. Segundo ele, o prazo
atual de 152 dias para abrir uma empresa cairia para menos de uma
semana.